Palavras Camufladas

Palavras

Palavras habitam minhas ideias. Ideias de palavras, de sons, de imagens.

Afinal, que significantes são esses?

Palavras parasitas, palavras cintilantes, palavras que ofuscam meu eu.

Palavras não ditas, palavras sem som, som de palavras.

Palavras com sentidos, mas sem sentimento, palavras sentidas, também sem sentido.

Palavras de um, palavras de outros…

Da onde vem as palavras? De onde vem o pensamento? O que são ideias?

As palavras se inscrevem, datilografando os neurônios.

Machucam por não serem, mas são ao mesmo tempo.

Passam a ser.

Ser quem?

Só são palavras. São só palavras.

Palavras de dor, como um corte profundo no dedo, que não para de sangrar.

Palavras de acalento, como uma boa escuta: Eu te entendo.

Palavras que dialogam pelo olhar.

Palavras que nos pões à imaginar.

Palavras que são…

Ser como eu, ou ser como o outro. Ser de nos dois. Ser a gente. Ser eles. Ser o povo. Não ser ninguém.

De tanto pensar em ser, sei que não sou, o que acabo sendo.

Quem eu sou?

Sou como palavras, venho e vou. Estou aqui, ali e lá.

Saio dos lábios em sons em dias de mais ou menos vontade, sou refém do sentir. Sou sentida a todo momento.

Sou imposta, impostora sem pena ou piedade.

Sou som, sou imagem, sou sentida em meu sentido. Sou sentida mesmo não sendo.

Sou como sou, um vir a ser, que nem sempre será.

Sou de alguém, vou para alguém. Mas não sou de ninguém. Sou de mim, sou do meio.

Observo o tempo, estou no passado, presente e futuro.

Olho de fora. Sou dona do mundo, do tempo, e de muitos animais.
Me usam, abusam, me objetificam.

Me colocam som, ritmo, me organizam em frases, me jogam, me expulsam, me cospem.

Me estudam, querem me organizar, acreditam ter algum poder sobre mim.

Pobres seres ditos sábios.

Me dão sentidos, sentimentos, sensações, mesmo sendo tudo sem sentido.

Ou teria sentido para alguém? Faz algum sentido para você?

Estou morta nos mais belos conceitos.

Estou viva quando sentida, viva em sentimento, viva em ato. Oh, como sou sentida ao ser falada, ou seria ao ser ouvida?

Sou mágica, mas não sou bruxa, minha magia contagia as mais diversas crenças.

Se banham em mim, em cada renovação, a cada novo ser.

Utilizo-os e me faço de utilizada. Existo e não existo. Estou sempre camuflada.

Ser de um. Ser do outro. Ser de mim mesmo.

Ser de ninguém.

Ser das palavras.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.